Luto no samba. Morre o poeta do samba, Arlindo Cruz

Morreu aos 66 anos o ícone do samba, Arlindo Cruz, devido a falência múltipla dos órgãos. Ex-integrante do Fundo de Quintal, ele deixou um legado de mais de 700 composições, sendo reconhecido por unir poesia sofisticada e linguagem popular. Arlindo foi um multi-instrumentista e compositor versátil, influenciando gerações. Sua paixão pelo samba nasceu na família e ele se tornou referência, inclusive, na introdução do banjo no gênero. O velório será na quadra da Império Serrano.
O gênio Arlindo Cruz nos deixa aos 66 anos. Sua poesia e ritmo eterno do Fundo de Quintal vivem em mais de 700 samba
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Ex-integrante do grupo Fundo de Quintal se notabilizou pelo refinamento das letras dos sambas sem deixar de ser popular

Rio de Janeiro (RJ) ─ Faleceu no início da tarde desta sexta-feira em decorrência de falência múltipla dos órgãos, o compositor, multi-instrumentista e cantor, Arlindo Domingos da Cruz Filho, o Arlindo Cruz, aos 66 anos. A morte de um dos mais importantes nomes do moderno samba carioca, foi confirmada pela sua esposa. Arlindo estava internado no hospital Barra D’Or, na Zona Oeste do Rio de janeiro, para tratar de uma pneumonia. Há oito anos, 2017, Arlindo sofreu um acidente vascular cerebral hemorrágico. Desde então esteve internado várias vezes e submetido a várias cirurgias.
Arlindo Cruz integrou um dos grupos de samba mais emblemáticos no Rio de Janeiro, o Fundo de Quintal, criado em 1980, reconhecido nacionalmente. O grupo surgiu a partir das rodas de samba realizada na sede do Bloco Carnavalesco Cacique de Ramos. Arlindo faz parte da segunda formação do grupo, em substituição ao também cantor, compositor e instrumentista Jorge Aragão, ao lado de Ubirajara Félix do Nascimento, o Bira Presidente falecido em junho deste ano, Ubirany (1940-2020), Almir Guineto (1946-2027), Neoci (1937-1988), Sereno e Sombrinha.
Autor de mais de 700 sambas gravados por vários artistas como a falecida Beth Carvalho, Zeca Pagodinho e Jovelina Pérola Negra dentre outros, Arlindo Cruz, demonstrou ao longo de sua carreira sua versatilidade ao compor diversos estilos, como samba de terreiro, partido-alto, sambas-enredo e sambas românticos, o que o consagrou como um dos maiores nomes do samba brasileiro.
Como compositor, nascido e criado no subúrbio do Rio de Janeiro, Arlindo demonstrou em várias composições sua genialidade ao criar sambas que, ao mesmo tempo, unia a linguagem popular a uma poesia sofisticada, muito similar do compositor mangueirense Cartola.
Dentre os sambas de sua autoria ou com parceiros que ganhou popularidade, estão “Casal Sem vergonha”, “Camarão que dorme, a onda leva”, “Saudade louca”, “Bagaço da Laranja”, “O Show tem que continuar”.

TRAJETÓRIA

Arlindo Cruz nasceu em 14 de setembro de 1958, no bairro de Madureira, localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro. Sua ligação com o samba surgiu no seio familiar ainda criança. Seu pai, Arlindão Cruz, tocava cavaquinho com quem aprendeu a tocar, bem como violão e sua mãe Aracy era ritmista e cantora. Ainda muito jovem começou a atuar como músico ao lado de grandes sambistas, dentre eles, Candeia, considerado seu padrinho musical e com quem tocou no grupo Mensageiros do Samba, ao substituiu próprio pai.
Fora o samba, Arlindo ingressou na Escola Preparatória de Cadetes do Ar, sem se desligar do samba.
Sua carreira musical teve o início de fato em 1981, quando passou a frequentar, às quartas-feiras, a tradicional roda de samba no Cacique de Ramos, ao lado dos então sambistas emergentes, como Almir Guineto, Jorge Aragão, Zeca Pagodinho e Sombrinha. Foi por meio de Guineto que introduziu o banjo, instrumento inexistente no samba, que Arlindo se aperfeiçoou no instrumento, tornando-se uma referência.
Arlindo como outros sambistas da roda de samba passaram a ganhar notoriedade mediante Beth Carvalho, que os colocou no cenário artístico gravando suas composições, ao ponto de ser tratada carinhosamente como “Madrinha”, por projetar uma geração de sambistas, até então longe dos holofotes.

FUNDO DE QUINTAL

Foi a partir da tradicional roda de samba do Cacique que ele ingressou no Fundo de Quintal, onde permaneceu por 12 anos, para seguir carreira solo.
O grupo se notabilizou por introduzir novos instrumentos de percussão, como o tantan e o repique criados por Ubirany e Sereno, integrantes da primeira formação do grupo, bem como o banjo adaptado com braço de cavaquinho introduzido por Almir Guineto e a forma de tocar aperfeiçoada por Arlindo Cruz, fórmula seguida por vários grupos de pagode.
O artista transitou no universo de sambas-enredo, compondo para a sua escola de coração, Império Serrano. Sua estreia foi em 1989, quando compôs em parceria com os compositores Aluísio Machado, Beto Sem Braço e Bicalho, o samba vencedor na disputa para o enredo “Jorge Amado – Axé Brasil”. Ele também participou de sambas enredos nas escolas Grande Rio e Unidos de Vila Isabel, nesta última tendo como parceiro Martinho da Vila em 2013, recebendo o Estandarte de Outro.
Em reconhecimento pelo seu trabalho e amor a escola, a Império Serrado o homenageou em 2023, fazendo-o enredo, “Lugares de Arlindo”, uma exaltação por ser símbolo da escola.

VELÓRIO

Segundo familiares de Arlindo Cruz, o velório será na quadra da Império Serrano. Em um primeiro momento será restrita a família, a segunda, aberta ao público até às 10 horas de domingo aberta ao público no estilo gurufim, uma cerimônia fúnebre com música e bebida, uma herança africana.
O sepultamento está previsto para as 11 horas no Cemitério Jardim da Saudade, no bairro Sulacap, também na Zona Norte do Rio.

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