Faleceu pouco depois das 9 horas deste domingo, o ex-governador Amazonino Mendes, aos 83 anos de idade. Ele estava internado no Hospital Sírio-Libanês, para tratar de infecção pulmonar, nesta terceira internação desde novembro do ano passado, quando esteve internado para tratar de uma diverticulite e pneumonia. Nas últimas 48 horas seu estado de saúde agravou por complicações respiratórias. Ele não estava mais respondendo a hemodiálise. Ontem, sábado, os médicos conversaram com o ex-governador sobre seu estado de saúde e o sedaram em seguida. Amazonino exerceu quatro mandatos de governador do Estado, três mandatos de Prefeito de Manaus e um mandato de Senador.
Amazonino Mendes deixa um legado de obras na Educação, Saúde, Infraestrutura e Cultura, jamais alcançada por um político amazonense.
Advogado, Amazonino Armando Mendes, natural de Eirunepé, ingressou na política em 1983 quando foi convidado pelo então governador Gilberto Mestrinho. Na eleição de 1982, vencida por Mestrinho primeiro governador eleito pelo voto direto no período da redemocratização do País, Amazonino Mendes, então empresário do ramo da construção civil, integrou a equipe de advogados da campanha.

Ao assumir o Governo do Estado para o segundo mandato em março de 1983, Mestrinho convidou Amazonino para assumir a Prefeitura de Manaus. Até então por causa do regime autoritário que o País vivia, governadores, prefeitos de capitais e um senador eram indicados.
PROJEÇÃO
Foi a partir da Prefeitura de Manaus que ele se projetou como político e administrador. A cidade que contava então com cerca de 700 mil habitantes, começou a experimentar um crescimento demográfico. Com apoio do Governo Mestrinho, Amazonino Mendes deu início a uma ambiciosa política de urbanização da cidade, com asfaltamento de centenas de ruas, ancorada por uma campanha midiática massiva à época, como a que caracterizou o asfaltamento de 611 ruas, e o crescimento populacional nas Zonas Norte e Leste.
Indicado por Mestrinho, Amazonino Mendes concorre e vence sua primeira eleição para o Governo do Estado (1987 a 1990).
Neste mandato de governador, além de dar prosseguimento a urbanização de Manaus. Foi neste período que surgiu a ampliação do bairro de São José Operário com as etapas dois e três, criação do bairro Armando Mendes, Santa Etelvina, todos surgidos através de invasões e o bairro que leva seu nome também conhecido por Mutirão, pressionado por uma intensa migração interna (interior do Amazonas) e de outros Estados, devido o ápice da Zona Franca de Manaus.

Neste período sua popularidade alcançou altos índices nas classes menos favorecidas, por se fazer presente em obras e ações. Na implantação do bairro Mutirão, Amazonino ia pessoalmente ajudar na construção de casas em madeira, almoçar com moradores e até mesmo jogar dominó, passatempo preferido.
No interior não foi diferente. O seu mandato foi marcado pela realização de inúmeras obras nos municípios, dentre elas o Bumbódromo de Parintins e a distribuição de milhares de implementos agrícolas, dentre eles os motosserras recebendo críticas ácidas de ambientalistas do então nascente movimento em defesa do Meio Ambiente. O Extinto IBDF (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal) chegou a abrir processo contra o governador.
Neste primeiro mandato envolveu-se em uma grande polêmica ao extinguir a Polícia Civil em meio a uma crise na Segurança Pública, culminando com o assassinato por policiais civis, do jornalista Luiz Otávio Monteiro, repórter que cobria a área policial para o Jornal Amazonas em Tempo.
No campo político, Amazonino em seu primeiro mandato desvinculou a sua imagem de Gilberto Mestrinho criando seu grupo político, trocando o PMDB pelo PDC.
Em 1990 deixa o Governo do Estado para seu sucessor, o então vice-governador Vivaldo Barros Frota para concorrer a uma vaga para o Senado. Embora sua candidatura fosse vinculada a Mestrinho que também se candidatou e elegeu-se Governador, Amazonino surfando sobre sua alta popularidade, fez campanha solo. Só participou de dois comícios liderados por Mestrinho em Itacoatiara e em Manaus, nesta última no encerramento da campanha.
VOLTA A MANAUS
Amazonino cumpriu apenas dois dos quatro anos de Senador. Ao final de 1991, arquiteta seu retorno ao cenário político local e em 1992, se candidata e vence a eleição para Prefeitura de Manaus com o então deputado federal Eduardo Braga como vice, no papel de adversário de Gilberto Mestrinho e do então prefeito de Manaus, seu adversário desde 1986, Arthur Neto. Já com as eleições em dois turnos, Amazonino derrota os candidatos Wilson Alecrim, apoiado pelo prefeito e o vice, José Cardoso Dutra, indicado por Mestrinho.
Nos dois primeiros anos de mandato na Prefeitura de Manaus, sua grande obra foi a reconstrução do Complexo da Ponta Negra, recuperação das principais vias da cidade e várias ações sociais.
Em 1994, deixa a Prefeitura e concorre novamente ao Governo do Estado, onde é eleito no primeiro turno diante da ausência de concorrentes mais expressivos. Em 1998 é reeleito derrotando Eduardo Braga agora seu adversário político.
Nestes dois mandatos (segundo e terceiro), Amazonino Mendes tenta mudar a cultura de produção no Estado como alternativa econômica, lançando o Terceiro Ciclo voltado para o setor primário, tendo como principal carro-chefe a expansão da agricultura extensiva de grãos na região sul do Amazonas, centrada em Humaitá.
No terceiro mandato, Amazonino cria a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) possibilitando um acesso maior da população, sobretudo no interior. Na área da Saúde deu os primeiros passos para transformar o Hospital Francisca Mendes como unidade de referência cardíaca e nas artes, implanta o Liceu Cláudio Santoro, abrindo a oportunidades a jovens de famílias menos favorecidas a ingressarem nas artes, onde alguns egressos atuam no exterior.
Em 2002 reata politicamente com Eduardo Braga e o ajuda eleger governador se retirando por um breve período do cenário político. Em 2006 concorre ao governo do estado contra Braga que o derrota no primeiro turno.

Em 2008 se candidata para o terceiro mandato de Prefeito de Manaus, vencendo o então prefeito Serafim Corrêa no segundo turno.
Foi neste período que os problemas de saúde se tornaram evidente. Portador de diabetes, Amazonino não concorre à reeleição devido a problemas cardíacos sendo submetido a cirurgia.
Em 2017 com a cassação de seu antigo aliado do Governo do Estado, Amazonino é eleito em eleição suplementar derrotando Eduardo Braga, já senador. Em 2018 tenta a reeleição e é derrotado pelo atual governador Wilson Lima. Em 2020 concorre novamente a eleição para Prefeito de Manaus e é derrotado pelo atual prefeito David Almeida.
No ano passado ele voltou a se candidatar para o quinto mandato de governador, ficando com menos de 20% dos votos válidos, já com a saúde bastante debilitada.
DE MILITANTE COMUNISTA A GOVERNADOR VISIONÁRIO
Amazonino Mendes nasceu em Eirunepé em 16 de novembro de 1939. Filho de Armando de Souza Mendes e Francisca Gomes Mendes, ele era formado em Direito pela Faculdade de Direito do Amazonas, hoje incorporada à Universidade Federal do Amazonas. Casado com Tarcila Prado de Negreiros Mendes, também advogada e procuradora da Assembleia Legislativa do Estado, falecida em 2015, com quem teve três filhos, Lívia, Armando Mendes e Cristina e quatro netos.
Seu pai, Armando de Souza Mendes era comerciante e seringalista em seu município natal, Eirunepé.
Ainda jovem, Amazonino Mendes, acadêmico de Direito, ingressou na militância política através de sua então namorada Tarcila Mendes. Ele se destacou pela oratória, sendo um dos poucos presos políticos do Estado com o golpe militar de 1964. Em passado não muito recente, os arquivos do Comando Militar da Amazônia ainda tinha ficha de Amazonino e do advogado Félix Valois, devido a militância de ambos no Partido Comunista Brasileiro, o antigo “partidão”.
Após formado ingressou no serviço público no antigo Departamento de Estradas e Rodagem do Amazonas e assessor no Senado Federal, para depois passar a condição de empresário no ramo da construção civil imobiliária, com a empresa Arca, que tem entre outras obras, o Conjunto Ayapuá, localizada na Estrada da Ponta Negra.
A partir de 1983 quando assume por indicação do então governador Gilberto Mestrinho a Prefeitura de Manaus encerrando ciclo de prefeito indicados, Amazonino impõe sua marca visionária.
Ao longo de seus mandatos de prefeitos e de quatro vezes governador, Amazonino Mendes, deixou a marca de empreendedor. Construiu o Hospital 28 de Agosto no Adrianópolis quando Manaus tinha somente um hospital de referência para emergência e urgência, o Hospital Universitário Getúlio Vargas, quando governou o Estado pela primeira vez. Ainda na área da Saúde deixou um legado de construção de hospitais no interior e de centros de saúdes especializados como os Caics e Caims.
Na economia tentou introduzir o Amazonas como estado produtor de grãos na região Sul do Estado, estimulando a vinda de agricultores para o cultivo em escala de soja e arroz nos campos naturais principalmente no município de Humaitá, tendo como “garotos-propaganda” agricultores ucranianos vindos do sul e de Rondônia.
Na Educação criou em seu penúltimo mandato de governador (1998/2002), a Universidade Estado do Amazonas (UEA), com cursos iniciais de Ciência Política e de formação de professores. “Quero ver se surgem novas lideranças” afirmou logo após a criação da UEA sobre o curso de Ciências Políticas.

Na área social, ele foi o pioneiro na criação de programa de complementação de renda, o cartão “Direito à Vida”, que chegou a ser elogiado pelo então senador pelo PT, Eduardo Suplicy. À época seus críticos o acusavam de assistencialista com objetivos eleitorais. Hoje o programa é abraçado por políticos/administradores da direita e esquerda.
IMPULSO NA CULTURA
Na área da cultura e artes, Amazonino Mendes deu o primeiro passo para investir no crescimento do Festival de Parintins, construindo o Bumbódromo, inaugurado em 1989. //
No final de seu primeiro mandato colocou o Amazonas no mapa cultural do País, iniciado em 1990 com a restauração do Teatro Amazonas, cuja a reabertura teve a programação dirigida por Fernando Bicudo.
Já no segundo e terceiro mandato, o ex-governador impulsionou o Festival de Parintins na década de 90, promovendo a entrada da Coca Cola como patrocinadora master, gravação de CDs dos bumbás e investimento maciço na divulgação da festa convidando personalidades artísticas e culturais.
Amazonino criou o Liceu de Artes e Ofícios para a formação de novos artistas, criou as orquestras, implantou o Festival de Ópera e de Jazz, colocando o Amazonas no circuito artístico do País e mundial. Era comum ver o ex-governador assistindo ensaios das orquestras realizadas no Ideal Club, na Praça do Congresso.
Ainda no seu terceiro mandato revitalizou o entorno do Teatro Amazonas, transformando-o em área cultural, abrindo espaços para os artistas. Seu sonho era promover uma completa revitalização do centro histórico de Manaus.




