Parintins (AM) ─ A 25 dias da primeira das três noites de disputa no 59° Festival Folclórico de Parintins, nos dias 26, 27 e 28, o Boi Bumbá Garantido deu início, no final da manhã deste 1° de junho, ao translado dos primeiros 20 módulos das alegorias em busca do bicampeonato. Os primeiros módulos, cobertos com plásticos pretos, deixaram o galpão onde irão compor a cenografia do ritual indígena do artista Netto Barbosa, dentro do tema “Parintins: Portal do Encantamento”.
Cerca de 40 kaçauerés (empurradores) de alegorias foram mobilizados desde as primeiras horas da manhã no galpão de produção dos módulos alegóricos. Segundo o vice-presidente do Boi Garantido, Marialvo Brandão, a saída dos primeiros módulos tem como objetivo dar mais espaço para a produção dos demais módulos. Na concentração, as alegorias recebem acabamento final, iluminação, efeitos especiais e passam por testes de movimento, inclusive com a participação dos itens especiais.

Todo o trabalho foi acompanhado pela engenheira de Segurança do Trabalho do Boi Bumbá Garantido, Erika Miranda, desde a saída dos módulos do galpão e durante o percurso de dois quilômetros até a concentração na Praça dos Bois, localizada na área do Bumbódromo, durante um percurso de dois quilômetros. Além dos Kaçauerés, integrantes das equipes responsáveis pela produção dos módulos alegóricos participaram do translado, totalizando cerca de 60 colaboradores.
Segundo Netto Barbosa, à frente de sua equipe composta por 20 integrantes, entre soldadores, pasteleiros, pintores, escultores e costureiras, os seis módulos irão somar a outros dez que irão compor o ritual indígena. Na arena do Bumbódromo, a alegoria montada terá 34 metros de boca de cena por 22 metros de profundidade e 22 metros de altura.

Para o diretor de galpão Ito Teixeira, que também atuará na direção da arena juntamente com Telo Pinto, a maior dificuldade está no percurso de dois quilômetros desde a Cidade do Garantido até a concentração.

“O maior desafio é a distância. Por ser muito longe, também enfrentamos pequenas irregularidades na pavimentação, que causam desgaste nas roldanas. Em geral, essas dificuldades são compensadas pela quantidade de pessoas para sanar os problemas, devido à logística disponibilizada pela diretoria”, afirmou. De fato, um colaborador da área de solda esteve presente durante o trajeto para consertar eventuais defeitos nas roldanas ou realizar intervenções necessárias.
O trabalho de translado de alegorias exige um esforço braçal para manter os módulos alinhados na pista. Nesse esforço, o PavulagemAM identificou a presença de uma personagem, a única mulher no meio masculino, Ivanir Nascimento, de 43 anos, com pouco mais de 1,60 metros de altura.
“É o meu segundo ano de Kaçaueré, no translado das alegorias. Trabalhei anos atrás como distribuidora de água, colaborando com os Kaçauerés, e me sinto lisonjeada em trabalhar no meu boi de coração. Este ano, vamos levar o Garantido para a arena e concentração e, se Deus quiser, ele será bicampeão”, declarou, acrescentando que, no ano passado, houve duas mulheres na função e, neste ano, somente ela.

Segurando a imagem da padroeira de Parintins, Nossa Senhora do Carmo, o presidente do Garantido acompanhou o translado acompanhado do seu vice, Marialvo Brandão.
“Esse é o momento em que começamos a sentir o resultado de todo o esforço que foi feito desde agosto, quando começamos a pensar no boi, discutir e chegar ao tema ‘Parintins: Portal do Encantamento’”, assinalou.
A ORIGEM
A origem da função de Kaçaueré surgiu em 1999, na gestão do falecido presidente Raul Góes, e foi implantada por Edjander Mota, tendo atuado até 2023. Até então, os empurradores eram chamados de forma pejorativa de “orelhas”, trabalhadores sem uma função definida.

O termo Kaçaueré foi sugerido pelo indigenista e compositor do Boi Garantido, João Melo, e significa, na língua da etnia Sateré- Mawé, “caçador”. Até então, o transporte de alegorias era meio desorganizado. Com a instituição dos Kaçauerés, o translado dos módulos alegóricos passou a obedecer a um planejamento e organização na área de concentração.
No período em que atuou na coordenação do translado das alegorias, Edjander afirma que o Boi contratava 150 Kaçauerés somente para o translado e, nas noites do festival, contratava mais 30 para ajudar no translado das alegorias da concentração para a arena e na retirada após a apresentação, devido à necessidade de agilidade para a entrada das novas alegorias durante a apresentação do Boi. Segundo Edjander, a organização implantada com os Kaçauerés é uma forma de proporcionar alguma renda para os colaboradores.
O trabalho dos Kaçauerés é manter os módulos alegóricos alinhados, exigindo por parte deles um grande esforço, auxiliando no transporte enquanto são puxados por um trator, empilhadeira ou caminhão, já que são estruturas pesadas, algumas ultrapassando três toneladas.


