Os anônimos do boi: a arte produzida à beira da rua em busca da sobrevivência

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Com poucas ferramentas e muita habilidade, Elizeu de Castro dá formas as cabeças dos bois parintinenses à beira da calçada

Enquanto espera ser chamado para trabalhar no Boi-Bumbá Garantido, Elizeu de Castro Lopes busca sobrevivência produzindo esculturas e outros trabalhos artísticos

Fotos: Eduardo Gomes

Um banquinho, um bloco de isopor, uma faca, uma resistência de chuveiro elétrico, escova de aço e lixa. Do isopor aos poucos as mãos habilidosas de Elizeu de Castro Lopes, 48 anos, vai dando forma a duas cabeças de boi, que ao final representam os bois mais famosos da Região Norte, os Bois-Bumbás Garantido e Caprichoso. A invés de ateliê por mais modesto que seja, o cenário para a produção das cabeças, uma encomenda de um amigo produtor de eventos, uma calçada na Avenida Armando Prado, na quadra entre as ruas 31 de Março e José Luiz de Menezes.

Elizeu de Castro, ou melhor, “Mister Zeus” como gosta de ser chamado é de uma linhagem de artistas criadas pelo mestre Jair Mendes, considerado o “pai” dos artistas parintinenses surgidos nos galpões dos bumbás de Parintins. Vários reconhecem isso, como o artista Juarez Lima dentre outros em várias entrevistas.

Com faca aos poucos Elizeu dá forma a cabeça de boi que será utilizado para ornamentação de festa em Parintins

Ele reforça isso logo no primeiro contato com o repórter: “sou cria de Jair Mendes”, avisa.
Enquanto vai dando forma a segunda cabeça do Boi Garantido – a primeira concluída foi do Caprichoso – , Elizeu diz que trabalha desde os 18 anos no boi da Baixa de São José, portanto 30 anos de atividade na arte de esculpir.

“Mister Zeus”, apelido dado por colegas pelo conhecimento adquirido ao longo dos anos na arte de esculpir, pintar, trabalhar com ferro, modelagem em cimento, dentre outras habilidades artísticas, vinha até a gestão do ex-presidente do Garantido, Fábio Cardoso, integrando a equipe do tripa do Boi, Denildo Piçanã. Na atual gestão do presidente Antônio Andrade somente fez um trabalho de pintura artística do palco para a primeira festa do Bumbá, ainda em março. Desde então espera ser chamado.

Na calçada sendo observado por dois amigos, Elizeu com a faca, lixa e escova de aço vai retocando a cabeça, com uma caixa de som emitindo música brega e durante a conversa mudou o repertório para toadas de boi-bumbá. Como não poderia deixar de ser, toadas do Garantido.

Ele conta que na produção do boi no ateliê de Piçanã, cabe a ele dar a forma final da cabeça, que já tem um molde pronto. Com a escultura pronta, entra em cena Denildo Piçanã, aplicando fibra de vidro, massa corrida – comumente usada em paredes -, pintura, correção do excesso com lixa. Terminada essa etapa é aplicada a lycra branca, a barra e a parafernália que dá vida ao boi, movimentos da cabeça, orelha, rabo e o talco simulando a respiração do boi.

Bem diferente do boi produzido no passado, feito de forma rústica, utilizando a cabeça do boi obtida no matadouro, que completo era extremamente pesado, causando enorme esforço do tripa.

Foi Jair Mendes o precursor do Boi que vemos hoje que encanta pessoas de todas as idades, dando mais movimentos ao boi, infinitamente mais leve se comparado com os bois do passado.

Enquanto vai fazendo sua arte, Elizeu conta que seu maior desafio foi a produção de uma escultura do idolatrado fundador do Garantido, o pescador Lindolfo Monteverde a quem é atribuído a criação do Garantido no início do século 20.

Ele conta que em 1996, Jair Mendes decidiu levar para a arena do bumbódromo na década de 90 uma imagem gigante de Lindolfo Monteverde que saia do coração, símbolo do boi vermelho e branco.
Segundo Elizeu, houve uma espécie de concurso para escolher da equipe de Jair Mendes, um escultor para realizar a obra.

“O Jair Mendes disse que quem fizesse uma escultura mais bonita, vai ser o escolhido”, lembra ao vencer a disputa.

ALEGRIAS E TRISTEZA

Em seus 30 anos atuando como artista e artesão, “Mister Zeus”, guarda dois momentos de tristeza. A primeira foi o acidente ocorrido na segunda metade da década de 90. A enorme alegoria do Anhangá assinada pelo artista Juarez Lima foi destruída por um incêndio, após a imensa estrutura ter tocado os cabos de alta tensão da rede elétrica que abastece a cidade. O acidente ocorreu no final da Avenida Nações Unidas, na área conhecida como “curva da morte”.

“Deu uma tristeza enorme ver um trabalho de seis meses sendo destruídos e vários amigos feridos”. O segundo momento mais triste assinalado por ele, foi o calote dado pelo ex-presidente do Boi, o advogado Fábio Cardoso em não pagar sua remuneração pelo trabalho realizado no bumbá. “Até hoje eu não recebi”, afirma.

Já indagado sobre qual foi seu momento de alegria nestes 30 anos, Elizeu de Castro, revela a faceta de um caboclo desprovido de vaidade, muito comum no universo dos bois-bumbás. Foi no festival de 2000, quando recebeu uma camisa, identificando a equipe do seu mentor, Jair Mendes na arena. “Foi uma camisa muito bonita” recorda.

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