O movimento que abalou “Paris”

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Ari Cavalcante, Henrique Medeiros, José Augusto Cardoso, Chico da Silva e o autor do artigo Afrânio Viana Gonçalves integraram o grupo dos então jovens parintinenses que criaram o Movimento Marujada que deu visibilidade ao Festival de Parintins e que hoje é a identidade cultural do Amazonas até então inexistente até meados da década de 90

Transcrevemos na íntegra, texto escrito por Afrânio Viana Gonçalves publicado no jornal Amazonas em Tempo na edição de 17 de junho de 2000, um dos fundadores e membro efetivo do Movimento Marujada, cuja denominação foi sugerida por ele, contando sua versão para a criação do Movimento que levou a brincadeira para além do muro de arrimo de Parintins e dando ao Amazonas a identidade cultural

Arlindo Júnior comandando a galera em um dos ensaios do Bar do Boi na extinta Tvlândia na primeira metade da década de 90 em Manaus

Quem conheceu “Paris” antes da revolução dos bumbás, como na intimidade é tratada Parintins não só pela abreviatura do nome como também por ser incrivelmente Iluminada pela espiritualidade de seu povo, certamente irá lembrar de uma cidade provinciana, conservadora, pacífica, mas que se encontrava arrasada economicamente, pois se sustentava na monocultura da juta que sucumbiu levando consigo a Fabril – sua principal indústria – e as cooperativas de juticultores deixando milhares de pais de família desempregados. Mas talvez não terá percebido a reação que se formava na mente criativa dos parintinenses para livrar a cidade do ócio porque para muitos isso se processava quase que intuitivamente.

No período do Bar do Boi na Tvlândia, o trabalho era voluntário em meio a um clima de fraternidade entre membros e simpatizantes do MM

Ilhados, mas com o espírito de conquista, um segmento de seu povo migrou para Manaus no início da década de 80 levando consigo suas crenças e costumes para não perderem a identidade cultural posto que tinham um compromisso moral de vencer a cidade grande e um dia retornar à terra natal.

De tanto falar, cantar e dançar toada de boi, esse grupo de jovens chamou a atenção de alguns formadores de opinião em Manaus que começaram a se interessar pelo boi-bumbá de Parintins embora de forma discreta, pois se tratava de uma manifestação folclórica de gente do interior, tipo coisa brega.
Nesse meio tempo crescia em Parintins a rivalidade entre Garantido e Caprichoso que tomou conta da cidade tendo sido erguido em 1983 pelo governo local do papo firme, um majestoso anfiteatro de cimento e madeira para corresponder à grandiosidade daquela festa junina, o qual passou a se chamar carinhosamente de Bumbódromo e que mais tarde, em 1988, pelas mãos do governo estadual, transformou-se numa obra arquitetônica monumental, digna da dimensão do folclore parintinense.

Com isso, a autoestima do parintinense se elevou, o dinheiro ainda que timidamente, voltou a circular, sobretudo nos meses de maio e junho com o comércio ganhando volume, as pessoas passaram a trabalhar nas diversas ocupações que emergem da brincadeira de boi, mas faltava um ponto de apoio para a festa ultrapassar a fronteira de Parintins, tornar-se popular no Estado e ganhar o mundo.

Isto veio através de Manaus, mas às duras penas. Rompendo barreiras do preconceito, aquele grupo de jovens migrantes cuja maioria coincidentemente se identificava com o Boi Caprichoso, juntaram-se adeptos e admiradores do folclore parintinense. Inicialmente na Ica Maceió em 1987 num projeto piloto que no ano seguinte passou a se chamar Bar do Boi, cuja renda auferida naquela época fora empregada na aquisição de instrumentos para a Marujada de Guerra, como se chama a percussão do Azul e Branco.

Formou-se então nos anos seguintes uma romaria em que membros do grupo lançavam-se em busca de espaço na mídia e de recursos financeiros junto aos empresários e ao governo de Manaus e do Estado com a finalidade de arrecadarem fundos para ajudar no orçamento do Caprichoso, mas tendo como pano de fundo, dar nova vida a Parintins que dependia do equilíbrio de forças entre os bumbás para reaquecer sua economia posto que até então, o Garantido parecia estar mais bem estruturado.

Imagem de um dos ensaios no Bar do Boi área tomada pelo público que aos sábados ia para a TVlândia brincar de boi com toadas do Caprichoso

Aos jovens migrantes e idealistas engajei-me e participei da histórica reunião ocorrida em abril/90 que deu ao grupo o nome de Movimento Marujada em homenagem aos tradicionais camisas azuis do Caprichoso. Naquela noite memorável alguns membros se faziam presentes na República Mista dos parintinenses em Manaus como era conhecida a residência de João do Carmo, o mentor intelectual do grupo, onde na ocasião passaram por lá gente ilustre como o mestre Chico da Silva, Lélio Lauria, Mônica Santaella, Ana Oliveira e Evandro Muniz.

Além do anfitrião, recordo-me da presença de Rogério de Jesus, atual presidente do MM, Pedro José, Maria das Mercês, Fernando Marinho, Marcos Santos, Norma Elaine, Dodozinho Carvalho, Sérgio Viana, Dalva Altrudes, Henrique Medeiros, Beto Vital, Themis Gama, Cacá Ferreira, Zeina Auxiliadora, Roberto Santiago, Lene Medeiros, Mário Condensa, Renato Azedo e Wallace Maia, enfim, só gente da tipuca.

Como testemunha ocular da transformação que estava ocorrendo no meio cultural de Manaus, maravilhava-se assistir o surdo da toada começar a roncar nas rádios e em vários pontos da cidade como na Ica, Recife, Praça 14, Aparecida, Cidade Nova e Cachoeirinha.

Admirava-se também ver a alta sociedade despir-se do preconceito e vestir a camisa do boi. Por mais paradoxal que possa parecer, foi um segmento do high Society manauara que deu apoio moral de que precisávamos para nos fazer conhecidos entre os formadores de opinião e assim divulgar a imagem do boi-bumbá de Parintins para toda Manaus.

Lembro-me do memorável jantar oferecido para o Movimento pelo casal Élcio e Lúcia Assayag na pérgula da piscina no Vieiralves. Figuras ilustres da sociedade manauara se fizeram presentes, colunistas sociais, gente famosa. Fomos todos, fizemos muitas tolices, mas valeu. Ao elegante e simpático casal devemos muito e como se não bastasse nos trouxe a Daniella, a nossa eterna cunhã poranga.

Veio então o Rio Negro, clube tradicional de Manaus, gentilmente cedido por Antônio Barateiro que, vencendo as resistências internas dos sócios mais conservadores que não admitiam a bandeira azul e branca tremular na sede rionegrina, tornava-se com toda família cada vez mais um entusiasta do Caprichoso. A sede social do Rio Negro foi fundamental para a estratégia do MM de levar a brincadeira do boi-bumbá às classes sociais mais elevadas e assim torna-la popular entre todos os segmentos da sociedade manauara.

Membros do Movimento Marujada festejam a conquista de mais um título na década de 90

Dona Norma Simões, esposa de Barateiro, virou uma assídua frequentadora dos eventos do Bar do Boi e nos ajudou a firmar com a Coca Cola/Grupo Simões uma parceria que nos acompanha desde o começo, sendo hoje esta marca uma das principais patrocinadoras do Festival Folclórico de Parintins.

Na corrida em busca de papelão para dar forma às alegorias do Caprichoso a simpaticíssima Neide Monteiro, uma grande incentivadora do MM, abriu as portas das lojas S Monteiro e nos doava todas as caixas de papelão que as lojas dispunham para serem enviadas a Parintins. Pessoas como Neide, acreditavam na sinceridade e dedicação com que abraçávamos a causa.

Enquanto isso, aos sábados os eventos do Bar do Boi atraíam cada vez mais aficionados pela toada e pela dança do boi. Partimos então para a TV Lar, capitaneados por João Braga Neto e José Augusto Cardoso, onde selamos um contrato de pai para filho com José Azevedo, outro admirador do nosso trabalho, e então nos transportamos para a TVlândia na Djalma Batista onde só saímos para o Sambódromo em 1998.

Por certo, com ou sem a criação e o trabalho do MM a festa folclótica parintinense pela sua potencialidade e riqueza cultural mais cedo ou mais tarde explodiria em Manaus e daí para o mundo. Mas tenho minhas dúvidas se estaria sob o controle de Parintins. Muitas foram as investidas de empresários do ramos de eventos e shows em querer explorar comercialmente o boi-bumbá parintinense, sem qualquer compromisso com os bis ou mesmo com Parintins.

Aparentemente mais fortes e estruturados que o MM, no entando, tiveram que enfrentar nossa ira e nossa determinação em não permitir o desvirtuamento da festa a todo custo e o público que assimilou nossa proposta acabou ficando do nosso lado. Lembro-me que não foi um ou duas vezes que chegamos a subir em palco para tomar microfone de pessoas alienígenas que usavam indevidamente os nomes do Caprichoso e Garantido. Para nós do Movimento era absolutamente fora de cogitação trazer o Boi e suas figuras para Manaus, assim como era o nosso objetivo levar Manaus para assisti-los em Parintins.

Mas a festa está aí e tornou-se popular com a participação indispensável da sociedade manauara. Não existe nada que dependa do Boi de Parintins que não passe por Manaus e por isso, a ela somos eternamente gratos. Como retribuição contribuímos para que Manaus e o povo do Amazonas tenham identidade cultural assentada em uma festa folclórica marcadamente cabocla que a ela se incorporou nossos costumes e nossas crenças e fez da toada a música popular amazonense.

Parintins, como me reportei acima, começa a colher os frutos da popularização de seu folclore. O município virou atração turística complementada por suas riquezas naturais. Seu povo se educa e se emancipa culturalmente falando e concebendo boi-bumbá o ano inteiro. Muitos postos de trabalho foram criados com a expansão de Garantido e Caprichoso. A cidade ganhou melhoramentos urbanos. Gostaria de não ser pretencioso neste assunto para duvidar que a história recente do boi-bumbá de Parintins poderia ser escrita de outra forma se não tivesse existido um movimento de vanguarda em Manaus.

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