Nem mesmo a pane do caminhão-som impediu a festa do Boi de Rua nos quase dois quilômetros de percurso
Fotos: Eduardo Gomes e Yuri Pinheiro (aéreas/drone)
O Boi de Rua do Boi-Bumbá Caprichoso realizado na noite deste sábado (18) e madrugada de domingo (19), vai ficar na memória de seus milhares de torcedores. Nas quase nove horas o cortejo reuniu uma multidão a partir do curral Zeca Xibelão até a Praça dos Bois em frente do bumbódromo. O Boi de Rua foi marcado logo no início por manifestação de repúdio ao duplo assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Philips no último dia 5 de junho e de solidariedade aos povos indígenas.
“Quem morreu pela Amazônia não será esquecido”, afirmou levantador de toadas Patrick Araújo ao dedicar aos dois a toada ‘Vale do Javari’ cuja letra é do indigenista natural de Parintins João Melo, torcedor do boi contrário (Garantido) e a música do compositor do Caprichoso Ronaldo Barbosa. “Vale do Javari” na realidade foi escrita em forma de poema, quando João Melo trabalhava na Funai em Atalaia do Norte, onde o indigenista e o jornalista foram assassinados. “Vale do Javari” integra o álbum do Caprichoso de 1996 “Criação Cabocla”, considerado um dos melhores álbuns do Bumbá da Francesa e que marcou seu tricampeonato, 1994,1995 3 1996.

O prenúncio da grande agitação azulada era perceptível desde o início da noite, grupos de amigos e familiares se posicionaram a partir do curral, na Rua Gomes de Castro e Avenida Amazonas. E foi o que aconteceu. Os milhares de torcedores se entregaram à folia bovina azulada como há muito não se via em Parintins.
Vários desses grupos alugaram triciclos, abastecidos com bebidas ou para transportar crianças sob olhares atentos dos pais e familiares; outros, com aparelhos de som, alguns em paredões, executando toadas do Caprichoso, mais parecendo uma babel de toadas; e aqueles torcedores residentes no trecho percorrido com a frente das casas orgulhosamente adornadas com balões e bandeiras, como foi o caso da família Santana.
O Boi de Rua é democrático, reúnes pessoas de todas as classes sociais, cor, raça e gênero e também de faixas etárias indo de crianças de dois anos de idade acompanhada dos pais até pessoas próximas de completarem um século de vida, como Julita Amaral.

Com 97 anos, Julita Amaral escoltada pelos familiares, filhos, netos e bisnetos, chamou a atenção dos fotógrafos, na esquina da Avenida Amazonas com a Rua Gomes de Castro. Com uma aparência franzina, com pouco mais de 1m50cm ela recebeu o Boi Caprichoso conduzido pelo tripa substituto Edy Soares sob a orientação do tripa oficial Alexandre Azevedo.
Trajando uma camisa estampada com imagem de Roque Cid de quem foi nora, Julita Amaral posou para dezenas de cliques de câmeras fotográficas e de aparelhos celulares. “Pra mim o Caprichoso é tudo”, disse em meio ao barulho ensurdecedor das misturas de sons.
Triciclos

Em meio à multidão, a maioria trajando roupas nas cores Azul e Branca, somaram-se a profusão de triciclos, alugados por grupos de amigos ou familiar com suas caixas de isopor devidamente abastecidas para a longa caminhada de quase dois quilômetros. Todos ornamentados com réplica ou máscara do Boi Negro, e balões como a família Barroso Silva, família Gonçalves proprietária da Rádio Clube, incluindo a ex-sinhazinha da Fazenda do boi contrário (Garantido) Vanessa Gonçalves com o seu filho de pouco mais de um ano, Glaucio Bisneto, acompanhou parte do cortejo. Outro grupo formado pelas famílias Viana e Ferreira havia posicionado triciclo enfeitado próximo a calçada de um supermercado.

Mais que celebrar a volta do Festival Folclórico, o Boi de Rua foi marcado pelo reencontro de amigos marcados por longos abraços de demonstração de afeto e amizade, após quase dois anos de isolamento por causa da pandemia que obrigou a suspender a festa mais tradicional e importante do Amazonas.
Um dos que acompanhou o Boi de Rua foi o compositor e intérprete Chico da Silva, muito festejado pelos torcedores.
Com uma agenda de apresentações no período que antecede a disputa entre os dois bumbás mais famosos, Chico da Silva elogiou o Boi de Rua por ver a “cultura tomando as ruas de Parintins” ao mesmo tempo que lamentou a perda de várias pessoas para a pandemia. Ele não escondeu a alegria e o prazer de ouvir o povo presente cantar suas toadas “Azul e Branco” e “Missionário da Luz” de sua autoria.

Embora seja declaradamente torcedor do Caprichoso, Chico da Silva está acima das rivalidades, compondo toadas para o Garantido, sendo uma das mais famosas, “Vermelho”, além de outros clássicos do gênero.
Ao longo do percurso, muitas pessoas preferiram assistir a passagem do Boi em frente de suas casas acomodadas na calçada. Uma delas foi a professora aposentada Jacirene Pinheiro acompanhada de duas outras mulheres, das quais uma a passagem do Caprichoso. “É uma oportunidade de brincar, de ver o seu boi ou o boi contrário e o povo se esbalda porque hoje o festival é para o turista”, observou em tom crítico. “A população de Parintins trabalha, apresenta, mas não assiste”, completou.

A dimensão da multidão pode ser medida através de imagens captadas por drones. Enquanto o Boi fazia evolução na esquina da Avenida Amazonas com a Rua Cordovil que demarca o território dos dois bumbás, o final do cortejo ainda estava entrando na Avenida saindo da Rua Gomes de Castro.
No momento em que o caminhão-som passava em frente a Catedral de Nossa Senhora do Carmo, padroeira de Parintins, o veículo apresentou pane. Os torcedores continuaram o percurso até a Praça dos Bois permanecendo até o raiar do dia.