A tradicional celebração religiosa aos santos cultuados pelos descendentes do criador do Boi e a saída do bumbá é a prova na qual o discurso de tradição e a realidade são dissociadas no universo do boi vermelho e branco
Parintins (AM) ─ A noite de segunda-feira (12) e madrugada desta terça (13), respectivamente véspera e dia de Santo Antônio movimentou parte da cidade de Parintins. Apesar de dia útil, centenas de torcedores do Boi Bumbá Garantido participaram de mais uma passeata em comemoração ao Dia dos Namorados. Durante quase cinco horas, os “camisas encarnadas” brincaram e confraternizaram durante o percurso percorrido de pouco mais de 1,5 quilômetros entre o curralzinho da Baixa, na avenida Lindolfo Monteverde até a Catedral de Nossa Senhora do Carmo, após a realização da tradicional ladainha em louvor a Santo Antônio.
Liderada pelo apresentador Israel Paulain e pelo levantador oficial do boi da baixa, Sebastião Júnior, a passeata teve início às 21h38min embalada pelas toadas antigas ao ritmo da batucada. À frente do caminhão-som, o Boi Garantido conduzido pelo seu tripa oficial Denildo Piçanã, secundado por um grupo de vaqueiros, cumpriu o rito de dançar em frente às fogueiras e distribuir rosas vermelhas às moradoras. Alguns itens oficiais participaram da passeata no meio da multidão atendendo vários pedidos de fotografias dos torcedores.

Dezenas de famílias já aguardavam desde o início da noite em frente às residências a passagem do cortejo, nas avenidas Lindolfo Monteverde, Armando Prado, Álvaro Maia até chegar na Avenida Amazonas, trecho final do cortejo. Na maioria delas além da tradicional fogueira, muitos moradores ornamentaram a frente das casas com balões fazendo formato de coração, símbolo do Boi, bandeiras e bandeirolas.
Para não fugir à regra como ocorreu na Alvorada, o caminhão som apresentou defeito ao final do percurso na avenida Lindolfo, atrasando a passagem do cortejo.
Já passavam das duas horas quando a passeata com o Boi Garantido chegou na praça da Catedral de Nossa Senhora do Carmo, saudado por rajadas de fogos de artifício.
LADAINHA, O REVERSO
Enquanto a passeata arrastou uma multidão festiva pelas ruas, o mesmo não ocorreu com a ladainha, uma tradição religiosa que precedeu a brincadeira de boi de rua.

Organizada pelos descendentes do fundador do Garantido, a ladainha prevista para se iniciar às 18 horas, sofreu uma hora de atraso. Isso se deve a vários fatores e o principal deles, a falta de energia no curralzinho da Baixa, berço do Garantido, religada pela concessionária Amazonas Energia pouco depois das 18 horas.
Mesmo com a energia restabelecida, a ladainha foi celebrada praticamente na penumbra, com apenas dois pontos de luz insuficientes no palco. Os refletores que iluminavam toda a quadra não existem mais por conta da depredação sofrida ao longo dos anos.
Organizada por Maria do Carmo Monteverde, filha de Lindolfo e pelo seu filho Raimundo Monteverde, a ladainha mudou de configuração. As rezas cantadas em latim, que se tornou uma atração já não é mais executada pelos homens. A maioria já faleceu e as novas gerações se mostraram desinteressadas. O lugar dos homens foi ocupado por mulheres, a maioria em idade já avançada e a tradição pode ser perder nos próximos anos.
“É a nossa tradição a ladainha. Relembra a fé, religiosidade e alegria de Lindolfo Monteverde com o boi Garantido”, descreve Maria do Carmo Monteverde, que compartilha o sentimento de manter enraizado a devoção e religião do Garantido com a fé cristã.

Ao contrário da avenida que aos poucos foi lotando com a chegada dos torcedores para a passeata, durante o período de quase uma hora da celebração da ladainha, apenas um pequeno grupo formado por 50 pessoas, a maioria do clã dos Monteverde assistiu à celebração religiosa. Nem mesmo membros da diretoria se fizeram presentes.
DISSOCIADOS
Membros da família Monteverde demonstraram contrariedade pela falta de apoio da diretoria do Boi Garantido por não ajudarem na manutenção da tradição, mantida por eles como a ladainha e a morte do boi, eventos que fazem parte da história do Garantido iniciadas no século passado.
“A tradição ela nunca acaba. As pessoas se melindram, principalmente a nossa direção, não tem o compromisso de respeitar essas datas. Prá nós da família Monteverde, ainda com a minha mãe, filha do Lindolfo que está viva, nós esperávamos que tivessem mais um pouco de respeito. Com o passar dos anos eles ficam mais distantes. Não é a questão da tradição se acabar. É a questão de as pessoas não valorizarem esse legado que Lindolfo deixou”, afirma Raimundo Monteverde.
De fato, desde quando foi criada a Associação Folclórica Boi Bumbá Garantido na década de 80, as relações com a família Monteverde passaram por altos e baixos. O fosso aumentou com a instalação da Cidade do Garantido e consequentemente seu atual curral, na segunda metade da década de 90, onde funcionava os galpões da Fabril Juta. O curralzinho da baixa passou por alguns anos de abandonou até que na primeira metade dos anos 2000, foi submetido a uma reforma com o propósito de ser um memorial em homenagem ao fundador do boi.
Sem ajuda da Associação Folclórica, a família Monteverde criou a Associação Regional Lindolfo Monteverde ao qual o curralzinho foi incorporado, em uma tentativa de preservar a história do boi vermelho e branco dispondo apenas de pouco ou nenhum recurso que conseguem arrecadar.