O artista faleceu por volta das 12 horas deste sábado no Hospital Delphina Aziz, onde estava internado desde o final do ano passado
Manaus (AM) ─ O Festival de Parintins perdeu o mago dos bumbás. Faleceu por volta das 11 horas deste sábado (15/03) aos 82 anos em Manaus, o artista plástico Jair Mendes. Ele estava internado no Hospital Delphina Aziz desde novembro do ano passado, quando contraiu pneumonia. Jair Mendes que foi presidente do Boi Bumbá Garantido na década de 90 e responsável pela evolução do Festival de Parintins ao introduzir na década de 70 movimentos nos bois Garantido e Caprichoso, alegorias, mudando a forma de apresentações dos bumbás tornando-os mais famosos do Brasil a partir da década de 90. O artista faleceu em decorrência de falência do sistema renal ao lado de uma das filhas.
A notícia do falecimento de Jair Bentes Mendes varreu Parintins. Foi o principal assunto nas redes sociais com dezenas de manifestações de pesar do mestre que se tornou influenciando três gerações de artistas de alegorias dos Bumbás Caprichoso e Garantido.
Tão logo a notícia de Jair Mendes foi confirmada pelos familiares, as presidências dos Bumbás, a Prefeitura de Parintins por meio do prefeito de Parintins Mateus Assayag, o ex-prefeito Bi Garcia e o Governo do Estado também divulgaram notas de pesar pelo falecimento do artista.
O mestre, que influenciou gerações de artistas, começou a enfrentar problemas de saúde em 2007 quando sofreu AVC (Acidente Vascular Cerebral). Após uma longa permanência em Manaus, conseguiu se recuperar e retornar aos trabalhos. Em 2021 Jair sobreviveu a Covid 19, passando em seguida a enfrentar problemas de insuficiência renal, passando a receber tratamento de hemodiálise, agravada com a pneumonia contraída no segundo semestre do ano passado.
TRAJETÓRIA
Jair Mendes iniciou sua vida profissional como publicitário no Rio de Janeiro, na função de arte finalista ainda bem jovem.
Ao retornar a Parintins, Jair Mendes tem os primeiros contatos com a brincadeira de boi bumbá conforme conta Zezinho Faria na virada da década de 50 para 60. Ex-presidente do Garantido nas décadas de 70, Zezinho Faria afirma ter sido seu falecido tio Emanuel Faria, o Badu, que levou Jair Mendes para o Boi Bumba.

Segundo Zezinho, cuja família acabou tendo forte influência no Boi nas décadas de 70 e 80, Badu pegava Jair Mendes ainda rapaz, para aplicar “manchas escuras no boi” além de pintar detalhes dos olhos, sobrancelhas e boca. “Ele pintava tudo com rolhas de cortiça queimada” lembra Zezinho, quando Lindolfo Monteverde preparava o boi nas noites de Santo Antônio e São João para brincar nas ruas de uma cidade de Parintins contava com pouco mais de 16 mil residentes dos 38 mil habitantes no município segundo dados do IBGE. Até então não havia Festival Folclórico que somente viria ser criado na metade da década de 60 por influência da Igreja Católica.
MOVIMENTOS
A primeira grande virada veio acontecer, segundo relato de Zezinho Faria, na noite de 28 de junho de 1978, quando Jair Mendes surpreendeu os brincantes e o público ao apresentar o Garantido como “Boi Biônico”, dotando-o dos primeiros movimentos na cabeça, orelha e rabo.
Ainda Zezinho Faria, a genialidade de Jair Mendes não ficou somente restrita em “dar vida” ao Garantido. Neste mesmo festival ele introduziu a primeira alegoria denominada “celebração panorama Amazônico”. “Ela cabia na carroceria de uma picape D20”, lembra Zezinho.
Além de dar movimento ao boi e produzir a primeira alegoria, Jair Mendes aperfeiçoou os capacetes usados pelos tuxauas, transformando-os em obras de arte e outro dado: Jair Mendes foi quem deu a primeira identidade visual do Garantido ao desenhar o escudo, o que foi seguido por membros do boi contrário, o Caprichoso.
PRIMEIRA ALEGORIA
Embora fosse torcedor confesso do Garantido, Jair atuou no boi contrário, o Caprichoso em duas ocasiões.
Segundo um dos discípulos de Jair Mendes, o artista Wandir dos Santos, a primeira alegoria criada por Jair tinha 1,5 metros de largura, um metro de fundo e com 2,5 metros de altura de um painel, do qual fez parte como colaborador. “Ela já vinha com movimentos com as garcinhas voando, a cobra se mexendo, um pescador saindo de um lado para o outro, tudo feito com linhas para dar o movimento e a Yara, a mãe d’água já surgindo de dentro de uma vitória régia”, lembra Wandir dos Santos, bem diferente das gigantescas alegorias de hoje produzidas pelos bumbás. Naquela época os brincantes traziam apenas adereços de mão.

Quarenta anos depois, em 2019, Jair Mendes e Wandir dos Santos voltaram a trabalhar juntos 40 anos na produção da alegoria de celebração folclórica do Boi Garantido. Foi o último trabalho do Mestre em alegorias.
Fora as atividades no Boi, Jair Mendes produziu cartazes de filmes exibidos pelo extinto Cine Oriental em Parintins. Com os conhecimentos adquiridos no Rio de Janeiro, ele implantou a serigrafia na cidade, estampando escudos das escolas municipais e estaduais no município.
Além do Garantido, Jair Mendes atuou por duas ocasiões no boi rival, Caprichoso”. Tanto seu nome está eternizado como “Galpão de Artes do Boi Caprichoso Mestre Jair Mendes, um complexo de 15 mil metros quadrados, localizado na rua Nhamundá.
Wandir dos Santos lembra que Jair Mendes foi o primeiro a trabalhar na produção de alegorias para as escolas de samba de Manaus, Vitória Régia e Aparecida, além de ter trabalhado na Portela do Rio de Janeiro na confecção de sua tradicional águia, símbolo da escola. Ele levou sua arte para vários municípios.
Em 2020, Jair sob a influência da família, se converteu evangélico ao se batizar na Igreja Adventista.
Dos seis filhos, quatro homens e duas mulheres, apenas Jairzinho Mendes, atualmente residindo em São Paulo e Teco Mendes seguiram os passos do pai atuando na elaboração de alegorias para o Caprichoso e Garantido.
O corpo do artista será transladado para Parintins, cuja chegada está prevista para às nove horas deste domingo, após ser velado à tarde e noite em Manaus.