Após dois anos, curralzinho da Baixa recebe a tradicional ladainha com poucos torcedores

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Após interrupção de dois anos, o curral da baixa onde nasceu o Boi-Bumbá Garantido é palco da ladainha em louvor a Santo Antônio com ausência do público.

Preceito religioso é mantido por uma pequena parcela da família Monteverde, legado nascido junto com a criação do Boi-Bumbá Garantido no início do século 20 com o risco de se perder devido ao desinteresse das novas gerações.

Fotos: Eduardo Gomes

Um altar improvisado sobre uma mesa de plástico na cor branca com uma toalha da mesma cor e para contrastar um tecido vermelho. Sobre eles, uma pequena imagem de Santo Antônio e uma vela cuja brisa fria insistia em mantê-la apagada. Atrás da mesa distante pouco mais de metro, o busto de Lindolfo Monteverde pintado recentemente. No centro da quadra uma fogueira improvisada e um público diminuto, menos de 20 pessoas, além das dez mulheres e um homem, liderados por Maria do Carmo, a única filha viva do criador do Boi Garantido, Lindolfo Monteverde. Na quadra do curralzinho da Baixa de São José, menos de 20 pessoas parte delas, acompanhantes das senhoras idosas que atenderam o convite para participarem das rezas. Assim foi realizada após dois anos, a ladainha em homenagem ao santo casamenteiro, de acordo com o imaginário popular católico no início da noite de domingo.

Maria do Carmo (com microfone), é a resistência em manter a tradição religiosa do Boi

A ladainha uma tradição religiosa mantida pelos mais idosos aos poucos vai perdendo força, apesar dos esforços de alguns poucos integrantes da família Monteverde. A desta noite de domingo, não lembra as ladainhas de outrora que atraiam um público bem maior para assistir as rezas. A prevalência das mulheres, todas trajando orgulhosamente vestes nas cores do boi, vermelha e branca, a maioria com idade bem avançada acima dos 70 anos, é uma mostra que essa tradição pode demonstrar que, aos poucos, está se esvaindo diante do desinteresse das novas gerações. Em um passado recente, os homens, muitos deles membros de congregações católicas como os Marianos, já com idade avançada, puxavam os cânticos em um latim, desapareceram.

Uma das poucas torcedoras do Boi Garantido presentes faz reverência a S. Antônio

As ausências em parte são explicadas por Maria de Nazaré Souza Matos, prestes a completar 89 anos no próximo dia 23 de junho. Alguns tradicionalmente presentes, faleceram em decorrência da Covid, enquanto outros estão com idade muito avançada, impedindo o deslocamento de casa para o curral para cumprir o rito.

Enquanto Maria do Carmo assessorada por uns poucos familiares do clã Monteverde na realização da celebração com duração de 44 minutos, tempo bem menor se comparada nas ladainhas do passado quando em muitas ocasiões o tempo da celebração era em média de 1h30min, dezenas de pessoas se aglomeraram na avenida Lindolfo Monteverde, esperando pela passeata do Boi Garantido festejando o Dia dos Namorados em meio a um emaranhado de triciclos para a venda de bebidas alcóolicas. Maria do Carmo lembrou da tradição ainda da época da baixa era área de floresta com centenas de tucumanzeiros no entorno do antigo curral onde por décadas os primeiros moradores brincavam de boi, bem antes da oficialização do Festival Folclórico.

AUSÊNCIAS

Levantador David Assayag abraçado a Maria do Carmo, cantou toadas antológicas após a ladainha.

A presença de integrantes do Boi sempre apostos com discursos ufanistas ao “boi da preservação” cultural, também foi pífia. Apenas o diretor de eventos, Werner Cardoso e do diretor financeiro Emerson Alencar compareceram na segunda metade da ladainha, bem como o apresentador Israel Paulain, levantador David Assayag e o tripa do boi, Denildo Piçanã que mais tarde conduziu o Boi Garantido pelas ruas da cidade.

O desinteresse também se estendeu com a mídia, onde outrora se faziam presentes em massa para cobrir uma manifestação religiosa/folclórica, praticada há décadas desde o século passado. Bem diferente do boi de pano glamourizado que atrai milhares de pessoas e recursos financeiros por meio de patrocínios.
Raimundo Monteverde, conhecido como “Tigrão”, apesar da baixa adesão dos torcedores do Garantido na ladainha, se mostrou otimista. Em sua opinião o baixo comparecimento ainda se deve do “receio das pessoas (mais idosos) do Covid por causa da aglomeração. “Na próxima ladainha terá mais gente”, prevê.
Ao final da ladainha foram servidos aos presentes, mingal de mungunzá (canjica) servida em copos descartáveis, preceito adotado por Lindolfo Monteverde, hábito comum em ladainhas e grupos de oração após a celebração religiosa.

Em seguida, o levantador David Assayag assumiu o microfone para entoar antigas toadas dividindo o canto com Maria do Carmo.

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